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Esta de mim



Esta era eu...cheia de sonhos...cheia de vida...cheia de alegria...era eu, apenas eu...

Fui caminhado, fui agregando, fui esquecendo o longo percurso para trás deixado, a areia quente nos meus pés, a brisa fresca de uma noite de verão, os sorrisos espontaneos, estava tão distraida a viver o momento presente, tão embriagada, tão compenetrada, num foco que hoje acredito ser só meu, numa meta de felicidade que não constituia a felicidade em si...de repente tudo foi tirado e usurpado, hoje no mais alto dos meus pensamentos profundos, e no meio das minhas reflexões constantes, porque para entender o presente, não há como não regressar ao passado, eu percebo que talvez eu não tenha voltado as costas a nada, talvez eu nunca mesmo tenha soltado, talvez tivesse sido usurpado sem que eu me desse conta de que já não estava lá fazia tempos, e eu tão compenetrada a tentar manter o que já não existia, continuava a afastar-me de mim....e completamente cega e alheia a uma realidade, a uma vida completamente ilusória, uma história, de muitos personagens narrada sempre pelo mesmo.

Hoje eu sei que quando entrei naquele rio, cheio de turbulência e sinais de que o caminho não ia ser fácil, eu nadei até à exaustão, como nado sempre, mas estava de cabeça submersa na água, e nem reparei nos animais que me circundavam sem que eu desse conta, só queria manter me a salvo, a mim e aos meus , e nesse percurso onde nadava sem pausas, sem distrações....durante o percurso os sinais apareciam e as bandeiras eram mais que vermelhas, mas eu criava a ilusão da mente, que o valor viria daquele meu esforço, e nunca veio...

De repente no fim do meu percurso, sabia que apesar de toda aquela natação sincronizada e suportada, eu sentia que nem 1 metro tinha nadado, olhava para trás e sentia o vazio de quem nada fez para ali chegar, afinal na ilha onde parei, onde a minha ilusão criava alguém que me aplaudisse, não havia ninguém, estava deserto, ninguém sequer percebeu o quanto nadei, o quanto me esforcei, e porra...que sensação devastadora...


Já nada do que fazia ou pudesse fazer era mais suficiente, porque a plateia já tinha ido embora, já assistia a outro espectáculo, e o que ali restava era a minha ilusão do outro....não havia outro, não havia ninguém, eu estava sózinha há demasiado tempo e nem sequer me havia dado conta, tamanha era a minha absorção nos outros e tão pouco em mim, no que eu queria, amava, almejava, desejava, sentia....

Haviam dias em que queimava por dentro...mas era cozinhada em lume brando, haviam dias em que as palavras eram tão vazias que eu já não as escutava, haviam dias em que a ausência e o silêncio eram tão ensurdecedores que me matavam por dentro e me faziam acreditar que eu não era a protagonista, mas uma mera espectadora de um filme que passou defronte dos meus olhos e eu não vi, porque estava a nadar submersa dentro de água....

Esta de mim...

 

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